Entrevista com Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, sobre o movimento dos secundaristas

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“Os secundaristas sabem dialogar com outros movimentos”

Embora apontadas como horizontais e desvinculadas de entidades tradicionais, as mobilizações dos estudantes secundaristas não rejeitam a integração com outros movimentos sociais, atributo destacado positivamente pelo mestre em Ciências Sociais Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Em entrevista ao Macuco Blog/Brasil Observer, Daniel Cara faz breve análise desse processo mobilizatório:

MACUCO BLOG | Esse processo de mobilização, desencadeado em São Paulo, surge pela ameaça de fechamento de escolas [estaduais]. Mas antes já era possível identificar indícios de que os estudantes estavam mais antenados, participativos, atuantes em manifestações, mobilizações?

DANIEL CARA | Ocupar politicamente os espaços públicos é uma estratégia já consagrada na história, mas no caso dos estudantes brasileiros, as jornadas de junho de 2013 com sua luta pela redução do preço das passagens de transporte público inspiraram as ocupações. Também serviram como exemplo mobilizações internacionais, como a primavera árabe, Occupy Wall Street, NuitDebout,M-15, etc. As ocupações também são inspiradas nas estratégias de luta do MST e do MTST. Esses são os exemplos nacionais e internacionais. Ou seja, já havia um clima nacional e internacional propício às mobilizações… E vale observar o amadurecimento do movimento: em junho de 2013 também se pediu melhor educação. Em 2015 os estudantes paulistas começaram dizendo “não aceitamos o fechamento de nossas escolas” e depois já queriam escolas com uma nova pedagogia e outra infraestrutura. É um movimento rico, vigoroso e vitorioso, pois a reorganização foi encerrada pelo governador Geraldo Alckmin.

MACUCO BLOG | Tais movimentos parecem mais orgânicos, desvinculados de instituições ou organizações tradicionais. Na sua avaliação, seria isso mesmo? Isso significa alguma negação às instituições tradicionais, ou não necessariamente?

DANIEL CARA | Nas jornadas de junho de 2013 os partidos políticos, as entidades nacionais do movimento estudantil, os sindicatos e os movimentos sociais foram proibidos de participar dos atos, o que foi um equívoco, uma afronta ao princípio do pluralismo democrático. Já as ocupações dos secundaristas souberam dialogar e usufruir das entidades tradicionais, trazendo elas para dentro do movimento, mas sem perder o protagonismo. A Ubes não comanda as ocupações, mas apoia juridicamente os estudantes que ocupam as escolas. O MST fornece alimentação, o MTST apoio político, bem como nós da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Ou seja, os estudantes de hoje estão mais maduros politicamente do que os que lideravam as jornadas de junho de 2013, pois são gerações diferentes. E é importante frisar: os estudanteD interagem, mas – corretamente! – não perdem o protagonismo.

MACUCO BLOG | Nas diversas ocupações de escolas – em SP, RJ, GO – a gente nota um envolvimento dos estudantes com esse espaço, com elas, as escolas – indo contra ao senso comum de que adolescentes e jovens são indiferentes, ou até rejeitam, a escola como espaço seu. As ocupações mostram que os estudantes têm plena consciência da importância da escola, da educação como instrumento para emancipação?

DANIEL CARA | As ocupações não foram lideradas pelos alunos mais comportados, mais afeitos ao espaço escolar. Elas foram lideradas por estudantes que, muitas vezes, não se envolviam muito com as escolas. Porém, quando tiveram consciência de que perderiam aquele espaço, perceberam o quanto ele é importante para suas vidas. Ao ocupar as escolas tiveram consciência de que elas são fundamentais para sua emancipação. A partir daí os alunos pedem uma nova escola, com uma nova infraestrutura e uma nova pedagogia. Eles descobriram a importância da educação quando ela ficou em risco.

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Por @waasantista, postado de Curitiba | Foto: perfil de Daniel Cara no facebook

 

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